Identificamos que o bolo de cenoura mais apetecente ao ser humano tem encaixe perfeito entre o polegar e indicador para içamento até a boca. Essa perfeição não significa precisão de ajuste para evitar perdas e garantir que o bolo chegue sem avarias ou desabamentos até a boca. É preciso que as dimensões da fatia adicionem um risco ao processo de trazê-la até a boca com os dedos. O tamanho do pedaço de bolo - também a consistência - precisa oferecer o suspense de um desabamento, queda de pequeno pedaço ou farelo. Oferecer o suspense não pode significar grande risco real. O suspense da queda de farelos vem apenas justificar a utilização da outra mão, que tem a função de aparar os supostos pedacinhos que venham a se desprender. A mão que iça e a mão que apara vêm também acompanhadas do conjunto de 5 expressões facial adequadas aos 3 momentos da mordida.
Garfo e faca para bolo de cenoura estão em baixa. Para um dos entrevistados, a utilização de garfo e faca para se comer um pedaço de bolo de cenoura é como usar uma peteca para apertar um parafuso*.
Em razão desse manuseio digital imprescindível, o bolo não pode ser 'esfareleiro nem fofosão ou lambuzento' (sic). É preciso consistência calibrada. Um bolo muito fofo pode amassar com a mordida sedenta e acumular energia mecânica potencial, que seria liberada ao fim da mordida e desencadearia a rápida expansão do bolo. O arremesso imediato de cobertura mole de chocolate no complexo buco marginal superior seria uma conseqüência desse movimento. O fenômeno do bolo fofo elástico foi denominado pelos pesquisadores de 'catapulta fofa de perséia'.
Já a consistência da cobertura foi catalogada com a ajuda de termos populares usados entre a classe C e D, também termos utilizados por poetas eróticos e também por pesquisas de estudos de solos.
Um outro atributo importante para um bolo de cenoura foi denominado de 'quenturinha'. A quenturinha consiste na temperatura da massa do bolo analisado estar entre 40ºC e 45ºC na hora de ser servido. Permite-se +2°C no limite superior da quenturinha em dias de chuva.
Temos frequentado cafés, padarias, borracharias, dicionários, lugares obscuros da mente e sites especializados em avaliação de comida. A reunião de dados tem sido intensa. A opinião popular sobre bolo de cenoura tem sido registrada, categorizada e submetida a métodos qualitativos muito modernos.
As dimensões, a consistência, a catapulta, a temperatura, tudo até então estava dentro da segurança de termos da engenharia, da física, da agricultura e da culinária tradicional. A realidade parecia sob controle, harmoniosa e próspera para o desenvolvimento teórico. Foi quando encontramos o bolo de cenoura que não era bolo de cenoura. A consequência quase que imediata foi a análise enveredar para o campo da ética, do direito, da paranormalidade e da força física entre os pesquisadores. Ocorreram convulsões existenciais e o subsequente desmantelamento da objetividade segura e produtiva. Um radouken de questionamentos transformou estruturas claras e definidas em uma quiçassa suja e sombria. Mas já passou.
Mais tarde trataremos de analisar o caso do bolo de cenoura que não era bolo de cenoura.
Pelos próximos 10 anos, nos concentraremos em avaliar bolos de cenoura que são bolos de cenoura mesmo.
Making Off
*Um dos entrevistadores, tomado pelo desafio da comparação - sozinho e no aconchego de seu lar -, tentou realizar tal proeza mecânica. Fez ao todo 11 tentativas. Afirma ter conseguido sucesso. Deve apresentar a façanha inédita em um programa de auditório.